Não me lembrava mais de suas belas feições. Peguei então a caixa, guardada no fundo do guarda roupa com todas as memórias que deveriam ser esquecidas. Aquelas que resolvi guardar em um canto, por pena de jogá-las, sem dó nem piedade, na lata de lixo. Devia. Então peguei a caixa, desfiz o nó do laço que deixava tudo preso ali, e a abri. Foi como se tudo viesse junto de uma vez só. Todas as memórias foram atiradas sobre mim naquele instante. Foi a primeira fotografia que me chamou mais a atenção. Um abraço, um cheiro no cangote. Magnífico, ele estava magnífico. Branco realçava a cor dos seus belos olhos verdes, que, ao sol, brilhavam. Ela, era apenas abraçada e sorria. O sorriso tímido de sempre. Nada era agora como era antes. As lembranças agora não machucavam, e nem ardiam. Era quase insignificante. Mas não havia como negar, ele era tudo. Mas era, só. Fiquei um tempo relembrando e logo depois fechei a caixa, com todo o cuidado. Antes tirei de lá duas pulseiras, que foram roubadas, entregues a mim e eu não as havia devolvido. Logo de início pensei em devolvê-las, mas não era algo que ele, perceptivelmente, sentia falta. Fui então até a cozinha e passei o café. Pensei por algum tempo nas fotos que haviam lá, na caixa. Pensei nas fotos que havia pensado em tirar, e não tirei. Pensei até nas fotos que eu havia jogado fora. Peguei uma caneca com o café, as pulseiras e fui para a rua. Fotografia é a única maneira que se tem de registrar um momento para poder depois voltar, lembrar, guardar, de uma forma palpável. É a forma mais singela de capturar belas imgens e deixá-las ali, guardadas, para serem observadas quando desejado. Gosto disso. Enfim. Dei uma olhada no jardim. Olhei para as pulseiras. Fui, por um impulso até as flores amarelas e lá cavei um pequeno buraco com as mãos. Minhas mãos ficaram levemente amarronzadas e com cheiro de barro. Não me importei. Joguei dentro do pequeno buraco as pulseiras, e lá as enterrei. Junto com todos os sentimentos que voltaram quando havia aberto a caixa a pouco tempo. Enterrei tudo ali. No barro levemente umidecido. No buraco que eu mesma fiz. Enterreias no meu próprio jardim. E depois de tanto tempo, descobri que não adianta de nada lembrar de todo um passado feliz, que sem dúvida, não vai voltar.
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