sábado, 25 de junho de 2011

Não é que eu me importe, porque Severina, se tem uma coisa de que eu não ligo mais é em estar sozinha. Mas acontece que agora eu estou com medo. E mamãe não fica mais aqui do lado pra eu abraçar as pernas dela, tanto é que agora não consigo mais abraçar as pernas dela estando em pé, e não vou sentar-me pra isso. Se eu sento vou ficar acomodada e só me incomodar. Preciso aprender a cuidar desses malditos medos sozinha também. Mas eu estou aprendendo tão rápido Severina, agora aprendi a passar café apenas para um, não sobra mais nada na garrafa quando eu estou farta. Sabe como isso é um avanço, Severina? Tens que aprender também a não me subestimar. Para de me olhar com essa cara de quem diz que eu estou maluca. Que história é essa de maluquice. Só estou tentando te dizer que não é nada disso que você pensa. Tenho certeza que você está pensando que eu preciso de um novo marido, mas Severina abre esses teus olhos de jabuticaba. Se eu desse bola pro Genário só ia ganhar mais dor de cabeça. Genário não ia entender que eu gosto de sair sozinha quando amanhece o dia pra sentir a neblina. Genário ia pedir para eu passar café para dois, não entendesse que eu acabei de aprender a passar para um só? Não aguento tanta mudança Severina. Tirando que eu enjoo muito fácil de tudo, vou enjoar de Genário e coitadinho, vai ficar com o coração partido quando eu lhe dizer que nessa minha casa a cama é de solteiro e tudo fica do jeito que eu quero. Tenho toalha de banho na sala e cafeteira no quarto. Tenho escova de dente na cozinha e uma bendita máquina de costurar no lugar da televisão. Como que o Genário iria assistir o jogo de futebol que passa as quartas-feiras? Por mim tudo bem se ele fosse sozinho pra casa do Pedrinho, pra eles verem o jogo juntos em algum bar. Mas Genário não ia entender esse meu jeito de deixar ele fazer o que quer. Ia achar que eu não o amo, o que realmente é a verdade mas eu estaria tentando esconder. E mesmo se eu o amasse, iria tratá-lo da mesma maneira. É que eu sou independente Severina. E não ligo se o Genário volta pra casa de madrugada. Porque se um dia desses eu resolver ir pra Porto Alegre e só voltar na segunda não quero o Genário no meu pé. E ele é grudento sabe. E se não sabes to te dizendo Severina. Ele é pra moças como tu, que sabem cozinhar e tem tempo e vontade de fazer massagem nos pés dele. Não tenho vontade de fazer isso, porque tempo eu até tenho. Mas mato ele escrevendo ou ilustrando páginas pro jornal e fazendo umas saias pra tia Filó. Genário nunca ia entender que eu quero viajar sozinha no inverno pra Lageado. Ele até poderia ir junto, mas eu não ia querer saber de massagem. Ia ficar fotografando o tempo inteiro qualquer galhinho que cai da árvore e de noite sim o Genário poderia me ser útil. Mas assim ele ia ficar chateado, conheço o Genário. Na verdade Severina, chega um tempo que você não consegue mais falar o nome dele. Eu não aguento mais ouvir esse nome Genário, vou começar a chamá-lo de Vicente, é um nome mais bonito e me lembra um homem mais na dele sabe. É de um desses que eu preciso, que pouco vai se importar se eu dormir com ele hoje e não ligar amanhã, nem semana que vem, nem ficar no pé dele. Ta na hora de eu mandar o Genário ir dormir e você tem que cuidar de fazer o feijão né Severina, vou dar uma passada na oficina pra ver se concertaram o meu Opala, to precisando mesmo é de um pouco de vento na cara seguindo a estrada pra Porto Alegre.

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