As luzes do quarto apagadas e um abajur iluminando os cabelos negros da garota. O silêncio parecia desagradável naquele momento, mas cada música que ela ousava escutar remetia sentimentos dos quais ela se recusava a sentir. Cada verso de um livro, cada cheiro que pairava no ar. É sufocante. É como estar sempre preso a qualquer passo que você deu, qualquer passo que seja memorável. As vezes, como naquele dia, naquela noite, tudo estava planejado para não ter preocupações, para ser só mais um, sem mais. E não foi, impossível viver o presente, os momentos, se a cada lugar que você vai, se cada música que você escuta voltam aqueles mesmos olhos, aquele vento de fim de tarde, todos aqueles dias, que se passaram e não voltam. Mas que diabos. E como é agoniante deitar na cama, olhar para o teto vazio e pensar se quem sabe, em algum momento, alguém além de você também sofre nostalgia, pelo mesmo motivo, se alguém pensa em um dia qualquer em que vocês viveram, alguma tarde louca sem sentido, algum sorriso, algum desabafo coberto de irritações, ou se é só você. Complicado. Inércia. Você procura de tantas maneiras achar alguma coisa que possa talvez não substituir mas ocupar a sua cabeça, alguma distração, que acaba criando fantasias. Fantasias de amores que nem sequer existem, nem iriam existir. Se bem que você nunca colocou fé em todo esse faz de conta, mas mesmo assim fingi, só para manter a cabeça ocupada, só para se obrigar a sentir e não poder ficar com ai vagando como um ser vazio e moribundo. Não acredita. Difícil é quando as coisas acontecem de uma maneira tão inesperada e ao mesmo tempo tão calculadas para acontecer. Com passos e toda uma trajetória. Devagar e sempre. Ou talvez não. Difícil é chegar ao ponto de acreditar nos possíveis amores. Ou no possível, pois foi só um. Único. Um entre tantas tentativas você chega a acreditar. Mas se arrepende no momento em que percebe que não era bem assim. Não passou de mais uma suspiro que não foi ouvido. Não chegou aonde devia. E esse sentimento de vontade de dizer tudo o que sente, todas as migalhas que ficaram entaladas. Não são exigências, nem reclamações. São só palavras que não foram ditas, lágrimas que faltaram ser derramadas. Só um desabafo, sincero, serão só os meus medos escondidos, entregues pra você, escritos em papel de seda. E se você mesmo assim não conseguisse me compreender, eu lembraria de tudo o que eu disse, e tudo se tornaria mais difícil do que é hoje, enquanto você não sabe nada. Tudo me leva a conclusão de que eu não sei me decidir entre as decisões que tenho que tomar. Não sei nem o sabor do vinho. Mas não espere para que eu siga em frente. Se eu sumi é porque te quero junto, mais perto. Sei desses teus segredos, mas mesmo assim, se tornam invisíveis a minha insegurança e ansiedade. E você faz o que te disse para não fazer. E você me mostra as músicas que eu preciso ouvir. Queria mesmo poder te contar tudo isso. Alertar o mundo inteiro da pessoa incompleta e incompreensível que sou. Dos meus dias frios aos mais aconchegantes. Mas não dá. Se eu contasse você talvez não notasse a importância que tudo isso tem pra mim. Assim não chegaríamos a lugar nenhum. Não seria mais devagar e sempre. Seria um amor inacabado, que nem chegou a acontecer. Agora, apague as luzes, está na hora de admirar um pouco a escuridão. Para que a luz não irrite seus olhos encharcados.
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