As vezes paro para pensar e acho que sou um zero à esquerda. Já disse no capítulo anterior, quando era pequena ninguém gostava de mim, e até hoje continua assim. Me lembrei hoje enquanto via o jornal da tarde com o meu pai de que ele nunca precisou sofrer por meus amores. Tive poucos, os que duravam eram raríssimos. Namorei um garoto na faculdade. Fazia geografia. Era um nerd, magro, cabelo mal penteado, óculos retangulares de aro marrom, camisa xadrez, mochila de lado, calças pretas. Conhecia de música. Gostava, particularmente, de hard core, punk rock e rock gaúcho. Conhecia de história, de política, de arte e cultura. Era aquele tipo de pessoa com quem você anseia para conversar. Aquela pessoa que você sabe que nunca faltarão palavras no meio de um diálogo. Aquele tipo que sabe fazer-te rir, mas te instiga a refletir. Inteligente. Não em matemática, não em física. Inteligente segundo o mundo. Imprevisível. De personalidade forte, que se impõe. Namoramos por dois anos e nunca me senti entediada. Todos os dias eram diferentes. Mas no fim, como todos os amores que que conheço. Terminou. Não que o amor havia terminado, e nem aquela paixão febril. Tudo continuava como sempre. O fim não foi trágico. Éramos ambos maduros o suficiente para entender que de nada nos adiantava fazer um rio de lágrimas. Antes que me pergunte, terminamos porque a formatura estava próxima, e, seria ali que cruzaríamos caminhos diferentes. Eu voltaria para minha pequena cidade montar um jornal local, enquanto ele, iria viajar por alguns lugares do mundo pesquisar alguma coisa relacionada a geologia, não entendo do ramo. De principio, senti falta de nossas conversas milenares. Começávamos conversando sobre o miojo que estava cozinhando e conseguíamos abrir um enorme leque de assuntos. No fim, estávamos conversando sobre Star Wars, ou nossas séries favoritas. Depois passou. No primeiro mês ele ainda me ligava. Trocávamos informações das nossas vidas e chegávamos a achar que talvez, não estivéssemos tão longe. De alguma forma estávamos perto um do outro, onde quer que ele estivesse. Mas depois as ligações foram se tornando raras. Até que um dia elas cessaram. Depois disso, nunca mais encontrei alguém que seja interessante. Nesta pequena cidade as pessoas possuem suas cabeças ligadas apenas no baile de forró que acontecerá no domingo. Ou na novela das 8. Detesto novelas. E estou assim, sozinha. Agora, que a solidão anda maior, me sinto fraca e acredito que seja mais fácil passar por minhas barreiras de seleção. A imagem de Henrique surgiu nos pensamentos desordenados que cruzavam a minha mente. Olhei, então, o calendário. Marcava dia primeiro de outubro, 01:33 am.
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