domingo, 17 de outubro de 2010

Que dia. Acordei, plantei, li, comi e dormi. Rápido, fácil e bem simples. Dormi até o mundo acabar e quando acordei o relógio ja marcava 12:00h. Foi aí que me dei conta de que dia 3 não estava mais próximo, dia 3 estava aqui, agora. Senti, então, meu sangue correr mais rápido. Faltavam apenas três míseras horas para Henrique chegar ao meu jardim. Lindo, radiante, com suas roupas surradas e seu cigarro na mão. Esperei pacientemente enquanto degustava  um bolo de cenoura que sobrara do café da manhã. Esperei com muita paciência. Mas, minha paciência não justificava a minha ansiedade. Depois, olhei para a janela e o vi. Havia chego 15min mais cedo hoje. Não hesitei e fui correndo ao seu encontro. O abracei. Nem acredito que fiz isso. Mas ele retribuiu meu abraço e sorriu. Com seus dentes tremendamente brancos e alinhados. Foquei seus olhos por alguns minutos e me senti presa a eles. Ele desviou o olhar e voltou a fumar. Fiquei parada ali ao seu lado. Aquele silêncio era agonizante. "Me desculpe pelo abraço. Foi... um impulso". "Tudo bem." Ele riu, senti o gosto de sua risada. Era doce, mas ácida ao mesmo tempo. "O que faz aqui?". Ele ficou quieto e por um segundo me arrependi de tê-lo perguntado aquilo. "Estou descansando, apenas. Seu jardim me transmite boas energias. Espero que a senhorita não se importe." "Não me importo, venha quando quiser, não hesite em vir outros dias." Ele nunca me respondia prontamente. Pensava sempre bem antes de me falar alguma coisa. "Já que você deseja, virei". Isso sim foi uma surpresa para mim, mas não respondia o porquê de ele nunca me dizer o que eu esperava ouvir. Esperava que ele me justificasse o porquê do dia 3, mas, ele apenas disse que viria outros dias. Cada resposta que ele me dava gerava milhares de perguntas sobre mim. Dúvida. Como ele era misterioso. "Você não gosta?". Não entendi, e o olhei de forma confusa, eu acredito. "Você não gosta de eu ser misterioso?". Não sei que tipo de super-poder ele tinha, mas isso foi sinistro. "Como? Como você soube? Você  lê pensamentos ou o que? Santo Deus!". Ele riu. Me olhou como se estivesse rindo de mim. Sarcástico. "Não leio pensamentos, Marie. Nem tenho super-poderes. Você apenas fez sua observação em voz alta." Marie, como você não pensa. Tive vontade de me enterrar na areia. "Ah. Eu já imaginava." Mentira, isso não tinha passado pela minha cabeça de abóbora. "Bem, não é que eu não goste. Mas desperta minha atenção e cria muitas dúvidas." Não sei porque eu insistia em ser tão sincera. "A maioria das garotas gosta." Comecei a achar que ele estava me provocando. "Pois eu não estou encaixada na maioria. O senhor me desculpe." Dessa vez eu fiquei com raiva. Fiquei com raiva de mim. Como pude ser tão grosseira. "Aceito suas desculpas, mas se meu mistério a encomoda, então porque não continua a me fazer perguntas? Tire suas dúvidas." Ok. Ele estava mesmo me provocando. "Suas respostas são como enigmas, ao invés de sanar minhas dúvidas só causam mais transtorno na minha cabeça." Ele pensou por muito tempo. E então me olhou. Ficou me observando, ou talvez, me estudando. Não conseguia imaginar em o que ele pensava. "Nossas dúvidas são traidoras, e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar." Enigmas. Fiquei em silêncio e então ele continuou. "É melhor que não queiras saber tudo sobre mim. Talvez a verdade a assuste. Deixe que eu seja uma incógnita para você, e, com o tempo, talvez você descubra o que tanto quer saber, sem que seja preciso eu respondê-la." Dentre todos os dias que Henrique havia despertado a minha atenção, esse foi o auge. E então eu aceitei, sem questionar, o que ele havia me dito. "Tudo bem. Aprecio o seu mistério." Ele olhou para o relógio, olhou para o horizonte, e então olhou para mim. "Está na minha hora, nos veremos em breve. Senhorita Winter." Então ele beijou a minha mão e saiu andando. O segui até que ele se tornasse um pontinho, se perdesse no horizonte. Depois, voltei para casa. Sentei na varanda e me coloquei a pensar nos inúmeros enigmas que eu tinha para desvendar. Mas logo desisti. 

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