quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um post longo, mas que busca continuar uma história antiga.

Certo dia não tive sono. Isso acontecia raras vezes mas quando a insônia resolvia bater em minha porta nada fazia com que ela fosse embora. E já que ela estava ali, não lutaria contra ela. Coloquei um roupão e água para ferver e passar um bom café. Não havia cafeteira na casa de meu pai, ele era um homem um tanto quanto antigo. Suas tecnologias eram a TV -comprada quando eu tinha 9 anos depois de muita insistência-, o telefone e a internet –que eu mesma instalei quando sai da faculdade, precisaria dela para meu emprego-. Nosso sítio não era um lugar divertido quando você gosta de vídeo games e canais de desenho por assinatura. Porém haviam cavalos, plantas, um morro, e outras coisas que uma mente fértil utilizaria para fazer dali seu castelo. Enquanto a água fervia andei pela casa sem rumo. Estacionei em frente a estante de fotografias. Havia uma foto de papai e mamãe. Mamãe tinha cabelos curtos e ruivos, com pequenos cachos que caiam por sua testa, olhos azuis. Era alta e magra, mas com belas curvas. Era, modéstia a parte, a moça mais bonita da cidade, papai sempre me dizia, para se gabar. Papai também era alto e um pouco magro. Cabelos lisos, mas revoltados devido ao corte mal feito. Olhos escuros. Pode-se dizer que sou uma mescla perfeita de ambos. Ouvi a chaleira apitando e fui fazer o café. Peguei uma caneca e me dirigi a janela. Estava escuro, a rua tinha poucas luzes. Calcei um chinelo e resolvi dar uma volta, me aventurar pela noite –nesta hora lembrei de Felipe, aquele namorado da faculdade, mas logo esqueci-.  Caminhei calmamente ao som de Beirut, olhando as estrelas –algo que eu recomendo muito fazer-. A brisa fria roçava meu rosto e deixava aquela sensação de frescor que a noite transmite, de liberdade. Andei muitos passos sem pensar em nada, de cabeça vazia. Foi então que pensei em Henrique. Pensar nele era um ato infantil. Segundo minha visão realista de mundo. Não poderia estar apaixonada, nem ao menos o conhecia. Mas havia algo nele, alguma coisa que me transmitia uma sensação deliciosa. Talvez fosse todos os mistérios que eu precisaria descobrir para chegar no verdadeiro Henrique. Talvez fosse como ele me fazia pensar. Ou talvez, fosse simplesmente o fato de eu não ter mais nada em que pensar, e ele estava ali à deriva, com seu jeito educado, mas irônico, sarcástico, interessante. Ele estava ali para que alguém pensasse nele, e já que não havia mais ninguém, a vítima era eu. Pensamentos argumentativos invadiam minha mente sem pedir licença enquanto eu caminhava lentamente até que vi algo brilhando, alguns passos a frente. De início senti medo, mas depois resolvi me aproximar. Foi então que percebi um gato, o que brilhava eram seus olhos cor de mel. Ele era branco com manchas aleatórias cor de terra distribuídas pelo seu corpo. Era muito elegante. Meu contato inicial falhou, ele miou e deu alguns passos para trás. Sentei então no chão, e esperei pacientemente. O gato chegou depois de algum tempo até mim, cheirou minhas mãos e então se esfregou por mim. Gostei do carinho que ele me fazia, e então o retribuí. Ficamos ali por mais algum tempo mas me dei conta que já era tarde e logo amanheceria, papai iria acordar se dirigir ao meu quarto para me dar bom dia e eu não estaria lá caso não corresse para casa. Peguei meu novo amigo e fomos a passos largos, mas calmos, para casa. Fechei a porta e coloquei-o no chão. Ele se dirigiu até meu quarto e deitou-se por sobre as patas no meio de minha cama desfeita.

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